Os Livros Apócrifos (Secretos) e o estudo das Sagradas Escrituras

Eusebius Pamphili (Cesarea)

Eusébio de Cesareia (1) autor ele História Eclesiástica, no capítulo intitulado as divinas Escrituras reconhecidas e das que não o são, após apontar os livros do Novo Testamento na ordem como os temos hoje na Bíblia Sagrada, menciona outros escritos conhecidos e difundidos pela cristandade no século IV. Ainda que não incorporadas no rol dos textos divinamente inspirados pelo Espírito Santo, algumas destas obras são destacadas pelo historiador, tais como o Evangelho dos hebreus, Cartas de Barnabé e Apocalipse de Pedro, dentre tantas outras que circulavam livremente pelas igrejas. Para ele, estes escritos apócrifos distinguem-se dos que a tradição da Igreja julgou verdadeiros, genuínos admitidos, principalmente porque nenhum dos escritores ortodoxos, os chamados apostólicos, mencionavam tais fontes. Também julgava Eusébio que nestas obras o estilo pensamento e a intenção dos apóstolos não se faziam refletir e, por isso, considera necessidade de rechaçá-los como inteiramente absurdos e ímpios. Não obstante o repudio incisivo das autoridades eclesiásticas, a circulação sub-reptícia dos apócrifos perdurou firmemente. Aliás, os reflexos do conteúdo deste material podem ser percebidos na produção da arte cristã que marcou todo o período da Idade Média.

Resultado da tradição oral dos primeiros crentes da era cristã, os apócrifos tornaram-se importantes documentos reveladores do modo como vivia e pensava uma grande parcela da cristandade, cuja voz ficou abafada pela Igreja Oficial. Produzidos para satisfazer as curiosidades populares a respeito da infância de Jesus e de seus pais, bem como a estabelecer as raízes da nova religião, tais escritos revelam, por um lado, as idiossincrasias do pensamento e das práticas judaicas que marcaram a origem do cristianismo, e outro, refletem a efervescente e plural cultura gentílica com a qual o Cristianismo passou a lidar cotidianamente em seu processo de expansão.

Muitos séculos depois, a despeito de não terem sido incluídos no cânone das Escrituras cristãs, tais textos continuam despertando a curiosidade do crescente número de interessados nas coisas da Religião. Todavia, o desconhecimento generalizado do conteúdo dos apócrifos tem gerado especulações que somente o exame acurado de seu real teor pode dirimir. Ao editar estes livros, pela primeira vez reunidos em volume único longe de apresentar uma nova Bíblia aos cristãos, o nosso objetivo é disponibilizar fontes primárias de um compêndio de riqueza informativa incomensurável para a plena compreensão do Cristianismo e estreitar o contato com a herança literária legada pelos movimentos populares que se mantiveram marginais no curso da História da Igreja.

A publicação dos proscritos da Bíblia converte-se em uma nova contribuição os interessados em aprofundar os estudos das Sagradas Escrituras, através de seu cotejo com a produção literária apartada do cânon tradicional. Destarte, o entendimento dos motivadores ideológicos que serviram à produção de ambos, bem como as razões que levaram a Igreja a adotar alguns textos como inspirados e reprovar outros como de origem espúria ou apócrifa, motivar-nos-á reafirmar o amor pela Palavra de Deus.

Autor: Prof. Dr. Jaime dos Reis Sant'Anna

(1) História Eclesiástica (Trad. Wolfgang Fischer). São Paulo, Editora Novo Século. 1999, p. 99-100